Acessibilidade Auditiva
Criamos esta página pensando em tornar o conteúdo mais acessível e acolhedor. Entre as medidas adotadas, você encontrará:
01. Texto alternativo em todas as imagens, facilitando o uso de leitores de tela;
02. Descrição das imagens integradas ao próprio conteúdo, para contextualizar melhor cada parte do site;
03. Um áudio com leitura livre da autora, disponível no topo da página, uma versão falada do conteúdo, com mais fluidez, pausas e interpretações pessoais, para quem prefere ouvir.
Nosso propósito é oferecer uma experiência mais inclusiva, sensível e humana, onde cada pessoa possa se conectar à sua maneira.
Áudio com leitura livre da autora
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Descrição da imagem: Fotografia em preto e branco, em formato horizontal. Em plano detalhe, ocupando toda a imagem, a parte esquerda do rosto de um homem negro. O foco da câmera está principalmente em seu olho, que olha diretamente para frente. A íris é nítida e de um tom escuro intenso. No lado direito da imagem, a orelha ligeiramente visível e desfocada. Sobre a fotografia, escritos cursivos em branco, propositalmente ilegíveis, espalhados pelo canto inferior esquerdo e pelo canto superior direito. No canto inferior direito, em letras brancas, lê-se: Dor e Narrativa, do Edital Paulo Gustavo de Minas Gerais. Logo abaixo os logotipos do Edital Paulo Gustavo, da Secretaria de Cultura e do Governo Federal do Brasil.
Como a arte pode transformar experiências de dor em potência criativa? Esta foi a pergunta que orientou a residência Dor e Narrativa, realizada em São Domingos do Prata (MG), unindo psicologia, fotografia e artes plásticas.
O projeto envolveu seis participantes indicados por três instituições locais, CAPS, APAE e Escola Estadual Marquês Afonso. Cada pessoa trouxe dores distintas: preconceito, insegurança, luto, maternidade interrompida, saudade e ausência de espaço pessoal.
A proposta foi criar um percurso artístico composto por escuta, ensaio fotográfico, intervenção manual e partilha pública, no qual cada participante se tornasse sujeito e criador de sua própria narrativa.
Metodologia
1ª Etapa: Entrevista inicial – a escuta da dor
O processo começou com conversas individuais, conduzidas com apoio das instituições e profissionais de psicologia. Mais do que uma coleta de informações, foram momentos de escuta sensível e registro documental, realizados com câmera como forma de estudo e aprofundamento futuro.
As entrevistas foram pensadas para que o participante não olhasse para a câmera, mas sim para mim, a entrevistadora. Essa escolha buscou criar um ambiente de confiança e naturalidade, onde cada pessoa pudesse se expressar sem se sentir observada ou exposta.
Cada participante pôde nomear a dor que queria ressignificar. Essas falas trouxeram símbolos, imagens e desejos que se tornaram matéria-prima para os ensaios fotográficos.
Por questões éticas e de privacidade, nenhum material bruto dessas entrevistas será disponibilizado ao público. Todo o conteúdo audiovisual serviu apenas como material interno de estudo e para embasar o processo criativo.

Descrição da imagem:
Fotografia colorida em formato horizontal. Sobre fundo cinza muito claro, uma mulher de costas opera uma câmera posicionada sobre um tripé. A mulher é branca, tem cabelos castanhos com algumas mechas claras, cacheados e presos em duas tranças que se unem, na altura dos ombros. Veste camiseta verde-musgo de gola redonda e, na orelha direita, usa um brinco longo em formato de gota, feito de miçangas pretas e brancas. A câmera, de cor preta, está virada para a diagonal direita. Em sua tela, o enquadramento em retrato de uma mulher de cabelos escuros, olhando para a frente. Ao fundo, vê-se a silhueta desfocada de uma segunda pessoa, parcialmente visível, vestida de preto.
2ª Etapa: Ensaio fotográfico – o corpo como narrativa
A fotografia foi construída em diálogo com cada pessoa:
– Cenário escolhido a partir de lugares de afeto ou significado.
– Elementos visuais simbólicos (tecidos, objetos, gestos, cores).
– Direção estética baseada nos desejos e sonhos individuais.
O ensaio não foi registro, mas espelho simbólico: um lugar em que o participante pôde se ver de forma diferente, performando suas dores e também suas potências.
Descrição da imagem:
Fotografia colorida, em formato horizontal.
Em plano aberto, sob um céu azul das serras de Minas Gerais, uma mulher fotografa um homem em uma encosta de terra avermelhada. À esquerda, uma mulher branca, de cabelos cacheados na altura dos ombros. Ela veste calça cargo marrom, tênis All Star também marrom e um casaco bege. À direita e mais à frente, um jovem negro envolto por um tecido branco, fino e transparente, que se esvoaça ao vento e cobre parcialmente seu corpo, tornando-o pouco visível.
O solo irregular é de terra avermelhada, com trechos cobertos por grama seca e esparsa, especialmente na parte inferior e à esquerda da imagem. Ao fundo, a vegetação densa de árvores e arbustos de folhas verde-escuras contrasta com o céu azul claro e límpido. No horizonte à direita, vê-se uma formação rochosa.
3ª Etapa: Oficina artística – interferir na própria imagem
Com as fotos reveladas, cada participante foi convidado a intervir nelas. As técnicas variaram entre colagem, costura e bordado para reconstruir, unir ou iluminar imagens. Pintura para acrescentar camadas de cor e vida. Gestos de desconstrução (recortar, queimar, rasgar) seguidos de recomposição, como ato de reelaboração simbólica.
Manipular a própria imagem foi decisivo: não bastava olhar-se, era preciso agir sobre si, materializando a transformação da dor em obra.



Descrição das imagens:
Fotografias coloridas em formato vertical, dispostas lado a lado.
Na primeira dupla de fotos, à esquerda, um participante negro, de camiseta azul-escura, está sentado à mesa e manipula um tecido preto sobre uma fotografia impressa. À direita, uma pessoa pinta sobre uma foto com pinceladas abstratas em cores vibrantes sobre o papel fotográfico.
Na segunda dupla de fotos, à esquerda, uma mulher de pele clara, que usa óculos, se inclina sobre uma foto de retrato impressa, enquanto faz intervenções de bordado com agulha e linha sobre a imagem. À direita, uma mão negra aplica linhas amarelas que formam bordado sobre uma fotografia.
Na terceira dupla de fotos, à esquerda, um jovem de pele morena, usando boné preto,com um pincel fino, aplica tinta amarela em uma grande fotografia que mostra um rosto masculino. À direita, uma pessoa inclinada pinta uma foto segurando um godê de plástico com porções de tinta colorida, ao lado de pincéis e potes de tinta.
4ª Etapa: Partilha final – tornar coletivo
A etapa final do projeto Dor e Narrativa é a partilha dos resultados.
Realizamos uma exposição em São Domingos do Prata (MG), reunindo fotografias, intervenções artísticas e depoimentos dos participantes. Foi um momento de celebração e reconhecimento: cada pessoa pôde mostrar seu processo para familiares, amigos, comunidade e para si mesma, fortalecendo vínculos e autoestima.
Narrativas
Maicon
Instituição parceira: Escola Estadual Marquês Afonso
Jovem de 18 anos, sensível e artístico, apaixonado por moda, maquiagem e fotografia. Sofreu preconceitos na escola por sua identidade como homem gay, mas hoje busca libertação desses julgamentos e o apoio da família, especialmente da mãe.
– Ensaio: mirante natural com tecidos preto e branco, símbolos de aprisionamento e libertação.
– Oficina: costurou o tecido original sobre as fotos, expandindo-o para além da imagem.
– Impacto: a fotografia se tornou um sonho de leveza e futuro.
Descrição da imagem:
Fotografia colorida em formato horizontal.
Um jovem negro de pele clara, de corpo magro e sem camisa, é parcialmente encoberto por um tecido branco, fino e transparente. Ele está de perfil, com os braços levantados para o alto. Sob o forte contraste da luz solar, as costelas do jovem estão evidentes. O tecido cobre os braços e a cabeça do jovem até a altura dos ombros. Ele esvoaça ao vento, exibindo dobras e ondulações geradas pela luz intensa que o ilumina por trás. O fundo está desfocado e mostra uma paisagem da serra com vegetação em tons de verde e marrom. O céu está claro, em tons de azul levemente amarelado.
” As fotos ficaram incríveis.
Parece que foi um sonho”
Descrição da imagem:
Fotografia colorida, em formato vertical.
Em plano geral, um jovem negro de pele clara, magro e sem camisa, está em pé sobre um chão de terra seca em tons de vermelho e marrom. Ele está descalço e veste uma calça preta, amarrada na cintura. Sua cabeça e rosto estão cobertos por um tecido branco, fino e translúcido, que se estende em direção à direita da imagem, formando uma longa cauda esvoaçante. Através do tecido, percebe-se levemente o contorno da parte inferior do rosto. Os braços estendidos ao longo do corpo, com as mãos fechadas.
O solo apresenta pequenos tufos de grama seca e pedras dispersas. Ao fundo, a vegetação é rala, com algumas árvores de troncos finos e copas verde-escuras. O céu é limpo, em azul claro.
Graziele
Instituição parceira: APAE
Mulher negra quilombola, mãe de Ragner, um menino autista. Para ela, cuidar do filho é missão e alegria, não dor. Sua saudade está na família distante e na recente perda do pai, homem de referência em sua vida.
– Ensaio: fotografias com o filho e com familiares, atravessadas pela ausência paterna.
– Oficina: bordou sobre as imagens, trazendo luz, amor e preenchendo simbolicamente o espaço do pai e sua relação com seu filho.
– Impacto: transformou o luto em gesto de memória e continuidade.


“Eu amei a experiência, foram momentos que marcaram minha vida pra sempre (…) retratou bem a união da minha família.”

” Sinto que as pessoas estão em outra vibração, prefiro me afastar e estar comigo mesmo.”
Felipe
Instituição parceira: CAPS
Homem espiritualizado, fala sobre Deus, cristais e a capacidade de ver luz nas pequenas coisas. Sente-se em descompasso com as pessoas ao redor e busca paz interior.
– Ensaio: gestos e olhares voltados para o alto, em conexão com o divino.
– Oficina: pintou intensamente suas fotos com tintas de tecido, quase sem conseguir parar.
– Impacto: revelou uma veia artística pulsante, transformando energia acumulada em criação.

Graciely
Instituição parceira: APAE
Mãe dedicada, divide sua vida entre o filho autista e o marido. Ama a família, mas sente falta de tempo para si, de se ver como mulher independente.
– Ensaio: com maquiagem profissional e produção, viveu um momento de autoestima. Foram feitos registros com o filho e o marido, mas também fotos só dela.
– Oficina: costurou linhas que simbolizam união familiar, florescendo das mãos do filho.
– Impacto: celebrou a união, mas também reafirmou seu desejo de se reconhecer para além da maternidade.


“O projeto já foi um presente pra mim.”


“Foi incrível o experimento, achei super criativo”
Anyo
Jovem em busca de identidade, inspirado por referências pop.
Vive inseguranças com o corpo e o rosto, oscilando entre desejo de transformação e dificuldade de aceitação.
– Ensaio: imagens performáticas que mostravam tanto o corpo que gostaria de ter quanto os traços que valoriza.
– Oficina: editou fotos, recortou, queimou e costurou as fotos, transformando-as em colagem de destruição e reinvenção.
– Impacto: o gesto performático materializou sua relação intensa com a autoimagem.
– “Anya”: Participante optou por não revelar sua identidade.
Para preservar sua privacidade, utilizamos o pseudônimo, escolhido em referência às suas inspirações pessoais.
O anonimato foi respeitado como parte essencial do processo: garantir que cada pessoa pudesse se expressar com segurança, autonomia e liberdade.
Pelo o mesmo motivo o ensaio completo não será disponibilizado.


Mízia
Instituição parceira: CAPS
Superando depressão pós-parto e TOC, viveu a dor de ter sido afastada da filha, hoje adolescente. Sua esperança é poder reencontrá-la integralmente.
– Ensaio: inicialmente trabalhamos uma fotografia em que aparecia com a filha, mas a carga emocional foi intensa. O foco se voltou então para imagens que elevassem sua autoestima, em que ela mesma escolheu como queria ser vista forte, bonita e confiante.
– Oficina: concentrou sua intervenção justamente naquela única foto em que estava ao lado da filha, trazendo cores e alegria para a memória que guarda.
– Impacto: transformou ausência em símbolo de esperança.
– Nota ética: o ensaio completo de Mízia não será exibido publicamente, pois contém imagens da filha. O resultado integral foi entregue apenas à participante, respeitando sua privacidade. Aqui, apresentamos apenas duas fotografias selecionadas, que não comprometem nem a filha nem o processo íntimo.


“Quero ser melhor para mim e para minha filha.”
Resumo do Projeto
Resultados
– 6 participantes diretos (indicados por CAPS, APAE e Escola Estadual).
– 24 encontros entre entrevistas, ensaios, oficinas e feedback com os participantes.
– 7 encontros para estudo e mapeamento com profissionais da área da psicologia, artes e educação.
– 8 profissionais da área da psicologia, artes e edução envolvidos diretamente no projeto como um todo.
– 6 ensaios fotográficos autorais.
– 12 obras de intervenção artística.
– Impactos observados: fortalecimento da autoestima, elaboração de luto, reconciliação com a autoimagem, acolhimento comunitário, reconhecimento artístico.
Reflexões e aprendizados
A residência Dor e Narrativa mostrou que:
– A escuta inicial é fundadora: sem ouvir a dor, não há símbolo verdadeiro.
– A fotografia é espelho e catalisador: ao se ver em imagem, cada pessoa inicia um processo de transformação.
– A oficina manual é ato performático: intervir na própria foto é intervir na própria narrativa.
– A partilha amplia sentidos: o íntimo se torna coletivo, e a comunidade é convidada a cuidar junto.
Para a proponente, o projeto foi também uma pesquisa viva sobre como a dor pode ser transformada em arte e como a arte pode se tornar linguagem de resistência, esperança e beleza.
Conclusão
Mais do que um projeto artístico, Dor e Narrativa se configurou como método. Escutar, representar, intervir e partilhar, quatro gestos que podem ser replicados em outros contextos, sempre mantendo o propósito essencial: transformar a dor em linguagem e ser útil à vida.
Oficina de autorretrato



Como contrapartida gratuita do projeto Dor e Narrativa, realizei uma oficina voluntária de autorretrato na Escola Estadual Marquês Afonso, aberta a inscrições entre os alunos do 1º, 2º e 3º ano do ensino médio. Foram três encontros dedicados a estimular a criatividade e a expressão pessoal dos estudantes.
Durante a oficina, apresentei um contexto histórico do autorretrato, discuti a fotografia como linguagem e ofereci dicas técnicas e estéticas para que cada jovem pudesse experimentar o autorretrato não apenas como registro, mas como forma de se olhar e se afirmar. Também trabalhamos sobre como usar a fotografia para expressar identidade e emoções.
Como desafio final, cada inscrito foi convidado a me enviar seus próprios autorretratos. Para incentivar o exercício, os envios participaram de um sorteio de um ensaio fotográfico profissional. O resultado foi expressivo: recebi 27 fotografias e ensaios individuais, um número significativo considerando a timidez e o contexto adolescente.
Embora esses trabalhos não sejam partilhados publicamente, por se tratarem de ensaios íntimos e pessoais, o impacto foi visível: os estudantes se entregaram ao processo, experimentando novas formas de se ver e se expressar.
O sorteio já foi realizado e a aluna vencedora terá seu ensaio profissional em outubro/2025, ampliando ainda mais os frutos dessa experiência.
Instituições Parceiras

Escola Estadual Marques Afonso
Uma das principais instituições de ensino de São Domingos do Prata, formando jovens do ensino médio e contribuindo para o desenvolvimento cultural e social da cidade.
No projeto Dor e Narrativa, a escola foi parceira fundamental em dois momentos: ao abrir espaço para a realização das oficinas com alunos do 1º, 2º e 3º ano do ensino médio, e também ao indicar um jovem para o ensaio fotográfico individual.
Essa colaboração possibilitou que os estudantes fossem reconhecidos não apenas como alunos, mas como protagonistas de suas próprias histórias, transformando vivências pessoais em arte e fortalecimento coletivo.

Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais – APAE de São Domingos do Prata
Uma OSC (Organização da Sociedade Civil), sem fins lucrativos e beneficente de assistência social, com atuação nas áreas de assistência social e educação.
Sua missão é “promover e articular ações de defesa de direitos e prevenção, orientações, prestação de serviços e apoio à família, direcionadas à melhoria da qualidade de vida da pessoa com deficiência e à construção de uma sociedade justa e solidária.”
Na residência, a APAE foi essencial para indicar participantes e garantir que mães, famílias e pessoas em processo de inclusão pudessem vivenciar o projeto.

Caps Prata Espaço Vivo – Centro de Atenção Psicossocial, tipo I.
O CAPS Espaço Vivo é um centro de atenção psicossocial dedicado ao tratamento e acompanhamento de pessoas em sofrimento mental e em situações de uso abusivo de álcool e outras drogas. Mais do que um espaço clínico, é também um ambiente de acolhimento, escuta e fortalecimento comunitário.
No projeto, o CAPS foi um parceiro indispensável, indicando participantes que encontraram no processo artístico um lugar de expressão, cuidado e ressignificação. A parceria mostrou como arte e saúde mental podem caminhar juntas.
